Em um Palácio Rio Branco cercado por aproximadamente 20 grupos de
capoeira da Bahia, do Rio e de Pernambuco, no centro de Salvador, o
Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Iphan (Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) acolheu por unanimidade, na
tarde desta terça (15), o pedido de registro da capoeira como
Patrimônio Cultural brasileiro, feito pelo Ministério da Cultura. É o
ponto alto de uma história repleta de altos e baixos. 'Não se pode
esquecer que a prática foi, por muitos anos, considerada crime pelo
Código Penal', lembra a historiadora e capoeirista Adriana Albert Dias.
'Hoje, é um símbolo nacional espalhado pelo mundo.'
Os registros mais antigos da capoeira vêm do século 18. Era praticada por escravos,
sobretudo os vindos de Angola. O esporte-dança foi considerado crime
até o fim da década de 1930. Só a partir de lá começou a alçar a fama,
hoje estendida a cerca de 150 países. Agora, passa a ser um dos 14
Patrimônios Culturais do país, junto com o frevo, o samba carioca e o
ofício das baianas de acarajé, entre outros.
'Se hoje a manifestação é legitimada como um dos principais símbolos da cultura
brasileira, foi por muito sacrifício, em especial dos mais antigos',
conta o historiador e pesquisador do tema Frede Abreu. 'Hoje, a maioria
deles está em má situação financeira.' Na prática, a elevação da
capoeira a Patrimônio Cultural prevê, além da inscrição, como Bens
Culturais de Natureza Imaterial, do Ofício dos Mestres de Capoeira no
Livro de Saberes e da Roda de Capoeira no Livro das Formas de
Expressão, a criação de um plano de previdência especial para os
'velhos mestres'. Gente como Francisco de Assis, o mestre Gigante, de
84 anos. 'Preciso muito dessa ajuda', diz Assis, que já participou de
rodas de capoeira com os lendários mestres Bimba e Pastinha, ícones da
expansão da atividade.
Para o presidente do Iphan, Luiz Fernando
de Almeida, o reconhecimento é um passo para que se estabeleçam
'políticas públicas concretas' para a atividade. As próximas medidas
para a preservação da capoeira, além do plano especial de previdência,
de acordo com ele, são o estabelecimento de um programa de incentivo da
atividade no mundo e a criação de um Centro Nacional de Referência da
Capoeira, com sede em Salvador. 'Vamos transformar a cidade em uma
espécie de Meca da capoeira', afirma. (Tiago Décimo)